BICO DE LACRE,
Angústia Fragmentária
Luísa Santos
Um conjunto de deambulações pela alteridade de um EU fragmentado, deambulações orientadas pelo sonho, pelo sentimento, pela dor, pela morte, pela loucura.
Mais do que dar respostas, Luísa Santos levanta as questões próprias de um ente em constante realização no tempo, um ente que com o seu ser estabelece uma relação de descoberta idiossincrática, um ente que como um puzzle anseia pela colocação da ultima peça de modo a fazer sentido.
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COMENTÁRIOS,
excelente livro
de António Coimbra de Matos a 2008-02-10
Está de parabéns a Bico de Lacre pela estreia que faz na ficção, bem como o editor Dr. João Cabral Fernandes. Com efeito, o livro de Luísa Santos é uma lufada de ar fresco no panorama das Letras. Ousado, poderoso ? por vezes, gritante ?, fustiga-nos a mente pela força da emoção, alertando a razão para a necessária morte das razoes ? razoes outras que o quotidiano nos impõe, vergado à omnipotência de socialmente correcto, ele próprio demasiado condescendente com a omnisciência do academicamente certo. É assim como Angústia Fragmentária contrapõe à quebra psicótica e erupção do delírio, não os panos quentes da sedação que amortalha a alma oprimida e em gesta amedrontada de libertação, mas sim a rotura saudável com a Lei e Moral heterónomas, abrindo passagem à autonomia de sentir, pensar e agir. Por isso, Luísa escreve de rajada ? como os heróis em campanha; poemas de amor e contra-ataques furibundos. É que o espírito liberto ama e odeia, com igual paixão. Só amor e mais amor é banha, unto. As ervas daninhas têm de ser afastadas, frequentemente, arrancadas ? doa a quem doer. Não será sempre assim, mas é-o com certeza quando a angústia intolerável põe em risco a coesão self. Só uma revolução/mudança catastrófica, a reviravolta que inverte o sistema ? e não a revolta que apenas o abala ?, coloca o sujeito na rota da liberdade e da expansão. E só então virá o esplendor do conhecimento ? até aí abafado ? e a fragrância da felicidade ? da qual somente pressentira um longínquo aroma. São momentos fecundos aqueles em que o psicanalista consegue uma interpretação que abre brecha no sistema rígido do pensamento patológico. São momentos de glória essoutros em que o próprio tem um discernimento iluminado sobre o que foi a sua vida e vislumbra o que ela poderá vir a ser. ?Cesse tudo o que a musa antiga canta/ Que outro valor mais alto se levanta?, diz Camões no seu poema épico. ?Minha velha ama que me está fitando/ Canta-me cantigas para me embalar?, versejou Guerra Junqueiro lírico ? aquém da ironia de A Velhice do Padre Eterno. Mas leiam Luísa Santos, que melhor do que eu vos falará das vicissitudes de quem sofre, ama, se zanga com os maus e nos embeleza quando mergulhamos, sem medo, na riqueza da sua prosa. Todos desejamos não nos desiludir. Isto porque a ilusão é o resplendor da esperança, a sua alma gémea irrequieta, o verbo que a transforma em sonho; sendo este o motor da acção ? o sonho comanda a vida, diz-se e com razão. Quem espera desespera ? se não se ilude. De ilusão em ilusão, vamos caminhando na senda da possibilitação ? tornando o aparentemente impossível no eventual e provavelmente possível. Porém, aprender com a desilusão é o acerto do passo para nova ilusão mais adequada à margem de possibilidade. Nisto consiste o segredo da criação. Construímos o futuro da mesma forma que conhecemos o presente: de mito em mito, aprendendo com o erro de concepção, vamos formulando a hipótese que mais rigorosamente explica o acontecimento. É este o princípio da ciência. Quer dizer: a hipótese é sempre provisória e refutável, tal como a ilusão é sempre efémera e corrigível. A omnipotência no mundo do pensamento e a omnisciência no do saber conduzem os incautos ao deslize para o delírio e/ou para a indulgência mental. Ou não fora a estupidez divina o resultado da condição de todo poderoso e todo ciente; a prova real é que Deus nunca arranjou mulher. A minha amiga Luísa, ao longo desta obra, conta-nos alternadamente a história da ascensão na esperança e na sabedoria ou da queda no abismo da psicose e na arrogância do mentecapto (a louca e o tirano, no fabrico da sua fábula e metáforas). Leiam, para sentir, este excelente livro; e depois meditem (o pensamento é uma reflexão sobre o afecto, uma meta-representação).
"para o leitor sensível será o prazer da descoberta"
de Semana Médica a 2008-02-10
A autora, Luísa Santos, acabou de publicar o livro ?Angústia Fragmentária?. Trata-se de um manual que é constituído por um grupo de deambulações pela alteridade de um ?eu? fragmentado, deambulações orientadas pelo sonho, pelo sentimento, pela dor, pela morte e pela loucura. Mais do que dar respostas, Luísa Santos levanta as questões próprias de um ente que com o seu ser estabelece uma relação de descoberta idiossincrática. António Coimbra de Matos no prefácio escreveu que ?temendo o vazio, afadiga-se a mente a construir diques. Alguns deles são obras de arte que a dor soergue; outros, lufadas oníricas de cinzas ainda incandescentes. Para a beleza de umas e o estonteamento de outras a autora nos transporta. E na rede que as entrelaça adivinha-se o sonho suspenso de um amor traído. Para o leitor sensível será o prazer da descoberta ? sempre nova e idiossincrática ou não fosse este livro uma criação criadora.? in Semana Médica 2005-01-13